sábado, 9 de julho de 2016

A guarda do sábado bíblico: é preciso que se descanse!

No sétimo dia, Deus já havia terminado a obra que determinara; nesse dia descansou de todo o trabalho que havia realizado. Então abençoou Deus o sétimo dia e o santificou, porquanto nele descansou depois de toda a obra que empreendera na criação. (Gênesis 2:2-3)


Eis que hoje nas redes sociais o assunto é a proposta de 80 horas semanais de trabalho. Inclusive um empresário de cidade que eu sou natural, Conceição do Coité, expressou-se a favor desta proposta. 


É muito interessante a construção judaica da "Guarda do Sábado". A análise sociológica deste mandamento, a partir do excelente livro "O decálogo numa perspectiva histórico-social", escrito pelo teólogo Frank Crüsemann, dá-nos a pista de que o intuito principal aqui era cessar a exploração daqueles que trabalham "de domingo a domingo", em especial porque o povo de Israel, quando escravizado, não podia gozar daquilo que o próprio Deus gozou: do descanso no sétimo dia. 

A ideia era que o indivíduo precisava descansar, tanto para se dedicar a Deus quanto a si e à sua família.

O Capital - e é importante compreender a diferença que Mészáros faz entre Capital e Capitalismo - por seu turno não considera necessário o "tempo livre" do sujeito. Isto porque um dos aspectos mais degradantes da ordem social do capital é reduzir os seres humanos à condição de "coisa", no intuito  de torná-los adequados aos limites da contabilidade de tempo do sistema. Neste sentido que há a famosa frase "tempo é dinheiro" e Marx dizia que "O tempo (para o capital) é tudo, o ser humano no máximo é a carcaça do tempo".

 Um livro super legal que eu indico é "O desafio e o fardo do tempo histórico", escrito por István Mészáros. Na página 11 ele diz que 

"O conceito de "tempo livre" é totalmente desprovido de sentido para o capital. [...] (no entanto) o tempo disponível dos indivíduos aumenta as potencialidades positivas da própria humanidade, como base do desenvolvimento individual e social no futuro". 

O fato é que em todos os momentos da história o Capital foi explorador das forças de trabalho da classe menos favorecida. Durante a Revolução Industrial, por exemplo, as famílias eram destroçadas, pois os trabalhadores entravam durante o dia na fábrica, saia do turno da noite totalmente cansados e ao chegar em casa o corpo não pedia nada mais que cama - sem sobrar, assim, tempo para a família, para Deus e para o próprio trabalhador. E a revolução industrial funcionou como no período de escravidão do povo de Israel. Não existia para estes o tempo de criação, mas apenas de trabalho mecanizado - como bem apresentou Chaplin no filme "Tempos Modernos".

Marx e Engels, no livro "A ideologia Alemã", apresenta uma proposta interessante:
na sociedade comunista, na qual cada homem não tem um círculo exclusivo de atividade, mas pode laborar em todos os ramos que preferir, a sociedade regula a produção geral e, precisamente desse modo, torna possível que eu faça hoje uma coisa e amanhã outra, que cace de manhã, pesque de tarde, crie gado à tardinha, critique depois da ceia, tal como me aprouver, sem ter de me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico.

Genial!Sem contar que Marx entendia também o óbvio: o trabalhador só se sente livre no seu momento de lazer.  Dizia ele:
O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo ao trabalhador, não fazer parte de sua natureza, e por conseguinte, ele não se realizar em seu trabalho mas negar a si mesmo, ter um sentimento de sofrimento em vez de bem-estar, não desenvolver livremente suas energias mentais e físicas mas ficar fisicamente exausto e mentalmente deprimido. O trabalhador, portanto, só se sente à vontade em seu tempo de folga, enquanto no trabalho se sente contrafeito. Seu trabalho não é voluntário, porém imposto, é trabalho forçado. Ele não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades.
Enfim, é uma coisa muito louca esta coisa de fuso horário, porque em pleno século 21 algumas ideologias vivem ainda em tempos que já foram ultrapassados há muito tempo.

Indico alguns livros sobre o assunto:

MÉSZÁROS, István. O desafio e o Fardo do tempo histórico. 
ANTUNES, Ricardo. O continente do labor

Avisos sobre o perigo: o profeta Amós e sua crítica à exploração econômica do indivíduo

Vivemos hoje em um mundo firmemente mantido sob as rédeas do capital, numa era de promessas não cumpridas e esperanças amargamente frustradas, que até o momento só se sustentam por uma teimosa esperança.(István Mészáros)


O capital, hoje na figura do capitalismo, viola todo e qualquer direito humano, pois, como escreveu Mészáros, o sistema surgiu na história como

Uma poderosa – na verdade até o presente, de longe a mais poderosa – estrutura “totalizadora” de controle à qual tudo o mais, inclusive seres humanos, deve se ajustar, e assim provar sua (do sistema) “viabilidade produtiva”, ou perecer, caso não consiga se adaptar.

Portanto, ao que parece, os direitos humanos estão vinculados às adaptações. Nem todos têm direitos, mas os que se adaptam. Ou todos têm direitos, mas só os que se adaptam conseguem/podem – ou podem porque conseguem – usufruir. Diante disto surge uma imensa batalha, de classes como dizia Marx, onde de um lado uns que só usufruem dos direitos e, do outro, os que são impostos somente “a benção” de executar os deveres. 

O fato é que em todo o tempo sempre apareceram pessoas que, inconformadas com a realidade, criticavam as estruturas políticas do seu tempo. Mészáros, no livro “O desafio e o fardo do tempo histórico” dedica o livro à três pessoas: Antônio Gramsci, Attila József e Che Guevara. E escreve dizendo

Este livro é dedicado à memória de três grandes seres humanos do século XX(...). Pois, contra todas as probabilidades, desafiando inexoravelmente as trágicas consequências que se tinha de sofrer, eles enfrentaram os permanentes desafios de uma época dilacerada pela sucessão de crises extremas e carregaram o fardo de seu tempo histórico aos últimos limites. (...) Todos os três percebiam claramente que somente a mais radical transformação societária, capaz de instituir uma verdadeira mudança de época, poderia oferecer uma saída da perigosa sucessão de crises que caracterizou o século XX como um todo. (MÉSZÁROS, 2007, p. 19)

De fato três grandes nomes, de lugares tão distintos: um italiano, um húngaro e um argentino/cubano. Ambos do século XX. E tantos outros que antecederam a eles e que lutaram tanto e com todas as forças pela paz e igualdade no mundo – e cito, para fazer justiça, ao grande V. Lênin. Entretanto, antes destes, muito antes destes, existiu um Israelita, natural de Tecoa, cidade Israelense da Província de Belém, localizada à 12 km ao sudeste de Belém na Cisjordânia.

Não iremos tratar exegeticamente do livro de Amós, nem fazer nenhuma análise histórica aprofundada do livro, mas ler as críticas do profeta ao sistema de seu tempo que destrói os direitos das pessoas.

O livro de Amós começa desta forma

Palavras de Amós (...), palavras das quais ele teve a visão, contra Israel, nos dias de Ozias, rei de Judá. (AMÓS. 1:1).

O profeta aparece para fazer uma crítica contra um povo, Israel, e contra o rei que governa este povo, Ozias. Ozias, segundo o livro de II Crônicas 26:1- 7, tornou-se rei aos 16 anos e até era querido por Deus, tendo até vencido batalhas. Mas Amós aparece para criticar a forma como este Rei vem conduzindo o povo e como o povo vem se comportando. Há, claramente nas palavras do profeta, uma macabra destruição dos direitos do povo de Israel.

Nas palavras de Amós, Deus manda enviar uma mensagem: a de que Ele vai trazer juízo, por causa de Sua Justiça, porque, dentre outras coisas, aquela sociedade “perseguiu com a espada seu irmão e abafou a misericórdia” (Amós, 1: 11), e, no capítulo 2:6-8 a seguinte denúncia:

Venderam o justo por dinheiro e o pobre por um par de sandálias; porque são ávidos para ver o pó da terra sobre a cabeça dos indigentes e desviam os recursos dos humildes, depois que o filho e o pai vão à mesma moça (...) por causa das roupas penhoradas que extorquiam perto de cada altar e do vinho confiscado que bebem na casa de Deus. (AMÓS 2:6-8)

Eis então, a partir destas palavras do profeta, uma lista de transgressões dos direitos humanos por parte de Israel:
  • Vender o justo por dinheiro. A pessoa como mercadoria.
  • Violência física contra os fracos. Dominação.
  • Desvio dos recursos dos pobres para financiar o luxo da monarquia. O que podemos chamar hoje de desvio de verba pública pra os bolsos privados.
  • Exploração sexual das mulheres.
  • Extorsão do pobre.

E um dos avisos, ao meu ver, mais contundentes do profeta Amós encontra-se no capítulo 8:4-6 abaixo transcrito
Escutai, vós que vos encarniçais contra o pobre, para aniquilar os humildes da terra, vós que dizeis: quando é que passará a lua nova, para podermos vender os grãos, e o sábado, para abrirmos os sacos de trigo, diminuindo a efá, aumentando o siclo, alterando balanças misteriosas, comprando o indigente a dinheiro e um pobre por um par de sandálias? Venderemos até o farelo do trigo! (AMÓS 8: 4-6)

Nestas palavras de Amós, que são dirigidas para os mercadores, fica a denúncia de que as pessoas estão sendo meros meios para se obter riqueza. E isto faz parecer com a frase escrita pelo Karl Marx & Engels em “O manifesto comunista” que profetizam:

A burguesia rasgou o véu de emoção e de sentimentalidade das relações e reduziu-as a mera relação monetária.

Unir o Amós e o Marx não se configura como anacronismo, mas surge para revelar que, nestes dois, os direitos humanos são violados por dinheiro. O direito de ter seus direitos é comprado com dinheiro.

Há uma frase muito falada que diz “farinha pouca, meu pirão primeiro”, isto é, primeiro os meus direitos. Estaremos, assim, então, caminhando para a barbárie? 

É preciso caminhar com o profeta Amós na perspectiva do que dizia a carta de Romanos 12:2: não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vossa mente. É preciso ter o coração repleto de uma teimosa esperança. 


quinta-feira, 30 de junho de 2016

Cuidado! Há racismo nas traduções e interpretações da Bíblia



Muita gente não presta atenção, mas há muita violência simbólica nas interpretações bíblicas. Mostrarei uma pra vocês.

Racismo em "Cantares de Salomão", capítulo 1, versículo 5

Eu sou morena, porém formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão.

Aquela velha coisa: "fulana é negra, mas até que é bonita". É isto que "sou morena, porém formosa" quer dizer neste versículo. Uma tradução mal intencionada, na verdade. O termo aí em hebraico é שְׁחוֹרָה אֲנִי וְנָאוָה

Enquanto algumas traduções trazem “Sou morena, porém bela”, “Eu estou morena, porém formosa”, o texto hebraico consta “sou negra e formosa”. O texto afirma a negritude e a beleza desta negritude. Tipo: Quer saber? Eu sou negra e linda. Chupa, sociedade!

Aqui temos uma negra protagonizando uma história bíblica, ela é uma sulamita da cidade de Sulam, aldeia de Nazaré. A negona aí é barril dobrado e não nenhuma submissa ou pobre coitada. 


Existem outros textos que precisam de uma urgente deconstrução já que foram usados para justificar biblicamente o racismo como por exemplo Números 12.1.

Em Números 12.1, há o seguinte:

E falaram Miriã e Arão contra Moisés, por causa da mulher cusita, com quem casara; porquanto tinha casado com uma mulher cusita.

O que é mulher cusita, vocês sabem? Cuxe era um povo que viveu onde hoje se localiza a Etiópia, e por ser um povo de pele escura, ou seja, negros, algumas pessoas desinformadas (like a Marco Feliciano) pensam que a indignação de Miriam e Arão era por causa da cor da pele desta mulher. 


Importante: os etíopes sempre foram vistos pelos cristãos do ocidente moderno, em especial os Espanhóis, como pessoas de relaxamento moral, falta de seriedade, ociosidade etc. - e também que não tinham alma, pois eram negros. Daí a falsa ideia de que Miriã e Arão ficaram contra Moisés por ele ter se juntado com uma negra. Mas, na verdade, a indignação de ambos era pelo fato de Moisés ter se casado com uma mulher estrangeira e não uma judia como lhes era de costume. 

Não existia o preconceito racista nessa sociedade em que o texto foi escrito, pois todas as pessoas eram de pele negra. O preconceito só começa a ocorrer no ocidente com o domínio grego e romano. Portanto, com estes elementos em mão, podemos afirmar que a revolta de Miriã e Arão não se deu em razão de racismo.

É preciso desconstruir o racismo nas traduções bíblicas, pois estas traduções também são formas ideológicas da Instituição, que vê um Jesus branco e de olhos verdes, se manter no poder.